segunda-feira, 6 de junho de 2011

Homeless

Com o frio o pobre senhor só tinha uma caixa de papelão para se cobrir. Suas costas molhadas com a urina que descia beirando o muro, de outro senhor que dormia mais para cima. Com suas unhas pretas de sujeira coçava a barba metade branca outra não. Seus olhos cansados olhavam a briga dos cachorros em plena madrugada. Eram apenas duas da manhã.
O estômago já mexido soltou tudo para fora em um único e barulhento vômito. Tinha tomado todas as garrafas de vinho que pôde. Os olhos lacrimejantes e vermelhos sabiam que a noite ainda ficaria cada vez mais gelada e barulhenta. Os trovões anunciavam uma chuva tempestuosa.
Na noite anterior uma briga por um pedaço de pão, fez com que seu braço sangrasse. Estava com a camiseta cheia de sangue escuro da outra noite. Estava morando ali por que sua esposa o traiu com seus dois melhores amigos, na mesma tarde, enquanto ele trabalhava em sua oficina para consertos de ventiladores. Quando chegou em casa e viu a cena, foi até o quarto dos fundos e pegou seu revolver calibre 38. Matou a esposa e os dois amigos. Mulher safada. Fugiu do interior e foi morar na capital em becos escuros. Vive na marginalidade do mundo cinza paulistano.
Seus pais o deixaram em um orfanato de freiras, sempre foi muito bom com todos. Caridoso e prestativo, toda semana fazia doações para a instituição onde foi criado. Ganhou o revolver de um antigo jardineiro do orfanato. Agora o chuva começou e eram apenas duas e dez da manhã. Sua noite não seria nada agradável.


Gustavo Ribeiro

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Pré estréia

A porta do bar tinha alguns adesivos colados. Adesivos de moto clubes, bandas dos anos setenta e algumas mulheres nuas. Senhores vestidos de couro e com seus grandes bigodes e barbas esperavam na fila de entrada. Deveria ser um bar gay. Nenhuma mulher. Talvez pudesse ser uma casa de prostituição também. Mas quem ficaria na fila para entrar em uma zona?
Meus olhos correram rápido para outra direção. Estava afim mesmo é de encontrar uma banca de jornais. Ler gibis de super-heróis ou não, só observar as capas coloridas e cheias de símbolos. Semiótica total. Ergui as calças e continuei andando. Maldito chiclete eu pensei. Durante uns quatro quarteirões continuei com o maldito grudado em meu tênis esquerdo.
Algumas putas faziam o seu ponto diário na esquina. Alguns carros estacionavam e logo partiam com as garotas. Pessoas sem papo. O cara precisa pagar uma garota para transar. Eu me enforcaria, logo. Um mundo bizarro como esse. Como posso pensar em ter lindos filhos e jogar eles aqui? Queria montar o meu próprio mundo. Cheio de cor e cheiro gostoso, nada de excrementos de cachorro de madame na frente dos meus passos largos. Estava atrasado. O filme da minha esposa ia começar em alguns instantes. Tive tempo de roubar duas flores em dois jardins. Quando ela me viu veio correndo me abraçar. Estava sorrindo e com um saco de pipocas na mão. Sentamos perto da sua família.  O filme iria começar.


Gustavo Ribeiro

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Nas raízes do Delta

A guitarra só acompanha as mãos suadas quase que acabando o show. As mãos negras de um bluesman. Buddy Guy. Sua guitarra branca e creme acompanhando seus anéis e correntes de ouro e sua camisa de seda brilhante.
Os dedos escorregam as casas sem preocupação e nenhuma vergonha. Não sai do lugar, apenas balança as pernas e as mãos, em um sincronismo perfeito. Mais um solo é finalizado com maestria. Uma palheta jogada ao público. Eu tenho a minha guardada em casa. Não precisam acreditar, mas eu tenho.
Os escravos libertos e suas gaitas. A guitarra depois de um trabalhoso dia. Jimmy Hendrix, nascido  Johnny Allen Hendrix em Seattle dia 27 de novembro de 1942 faleceu em Londres em 18 de setembro de 1970 em circunstâncias que nunca foram completamente explicadas. Havia passado parte da noite anterior numa festa, onde a namorada Monika Dannemann o havia buscado, e ambos seguiram para o Hotel Samarkand, no número 22 da Lansdowne Crescent, em Notting Hill.
Na noite anterior,  Hendrix tomou nove comprimidos de um remédio para dormir que a namorada utilizava, segundo o depoimento dela. De acordo com o médico que o atendeu inicialmente, Hendrix tinha se asfixiado (literalmente afogado) em seu próprio vômito, composto principalmente de vinho tinto.
Quando chegou na Inglaterra, diz a lenda, que o seu empresário o levou em um show que estava tendo naquele dia, o Cream de Eric Clapton. Na platéia estavam alguns dos deuses do rock: Mick Jagger, Lennon, Keith Richards e mais alguns outros figurões. No intervalo o empresário de Hendrix, convenceu Clapton que, deixasse o maluco com lenço na cabeça e roupas estravagantes, subisse ao palco e mandasse uma jam. Clapton deixou meio que irônico, saiu dando uma risadinha de desdém.
Quando subiu ao palco, o negro estranho de roupas coloridas, tirou sua guitarra da “bag” surrada e cheia de adesivos com as  cordas todas invertidas. O canhoto recém chegado da América, tirou canções do Cream totalmente modificadas e com outros arranjos. Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones, virou pro lado e disse para Eric Clapton, “ Cara, eu nunca vi um negro tocar assim”, Clapton com a boca aberta respondeu, “ Eu nunca vi nenhum ser-humano tocando assim”.
Final de tarde no Mississipi. As famílias reunidas para mais um crepúsculo. O sol se pondo. Os tios afinando seus violões. Os sobrinhos mais novos com as gaitas. Hendrix cresceu ouvindo e tocando em rodas de blues. Verdadeiras rodas de blues. Seu primeiro instrumento foi uma gaita que um tio deixou ele tocar quando tinha uns quatro anos de idade. Ficava batendo os pés no meio da roda e seu tio ao perceber ofereceu o seu instrumento. Nascia ali um dos maiores guitarristas de todos os tempos.


Gustavo Ribeiro

quarta-feira, 1 de junho de 2011

30 dicas para você escrever bem

Texto do professor João Pedro - UNICAMP
1. Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.
2. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.
3. Anule aliterações altamente abusivas.
4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.
5. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
6. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.
8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou??... então
9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa !@#$%&.
10. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.
11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.
12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem idéias próprias".
13. Frases incompletas podem causar
14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.
15. Seja mais ou menos específico.
16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!
17. A voz passiva deve ser evitada.
18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação
19. Quem precisa de perguntas retóricas?
20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.
21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.
22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-Ias-ei!"
23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.
24. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!!!
25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-Ia nos seus diversos componentes de forma a torná-Ias compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.
26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.
27. Seja incisivo e coerente, ou não.
28. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.
29. Outra barbaridade que tu deves evitar tchê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras, !... nada de mandar esse trem... vixi... entendeu bichinho?
30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá agüentar já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crianças

O frio e crianças sorrindo em um circo. Pipoca. Mágico. Malabaristas. Palhaço. Pequenas pessoas gargalhando apenas por estarem ali achei prazeroso. Sentia-me mais comovido a sorrir, quando ouvia alguém que quase caia no chão de tanto sorrir em alto e bom som. Lavei a alma.
Os sons do chicote, das batatas sendo mastigadas. Uma vida sem uma parada fixa. Vida de circense. Paixões. Loucuras.
- Saiam correndo daqui suas crianças desobedientes, gritou o velho ranzinza.
A garotada corria uma de cada lado, gritando, algumas jogando pedras nas janelas das casas com as luzes apagadas. As portas semi-abertas continuavam imóveis. Esperando algo passar por ali. Eu olhei tudo de longe sem acender nenhum cigarro. As crianças sumiram na escuridão. Eu entrei e fui tomar um banho.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Homem na Caixa

O homem na caixa se debatia como se estivesse dentro de uma casca de noz. Seus cabelos encaracolados e loiros se enroscavam nas frestas da pequena caixa de madeira. O garoto de voz rasgada queria se soltar.
Layne Stanley só queria saber como era seu pai. Aos oito anos de idade seus pais se divorciaram, Phil Staley e Nancy McCallum. Layne foi morar com sua mãe e suas irmãs. Na escola era quieto e não falava com muitas pessoas. Nasceu dia 22 de agosto de 1967 em Kirkland, Washington. Em 1987 conheceu e começou a tocar com Jerry Cantrell. Com o movimento grunge de Seattle, o Alice in Chains entra na industria cultural.
Boa parte das suas letras, falavam do seu vício em heroína e da falta que sentia do seu pai. Achava que com a banda, seria mais fácil de encontrá-lo. Teve uma surpresa ao descobrir que seu pai era um junkie também, o que ajudou em sua depressão e fez com que aumentasse o ritmo das drogas. Seu pai ia em ensaios pedir dinheiro para Layne.
A sua jornada no mundo das drogas se alongou à beira do precípicio. Após diversos rumores de suicídio, Layne caiu em depressão profunda após a morte de sua namorada Demri Parrot, vítima de endocardite bacteriana, doença causada pelo uso de drogas injetáveis. Após isso, seus problemas com as drogas só pioraram e Layne acabou sendo encontrado sem vida em seu condomínio, vítima de uma overdose letal de heroína combinada com cocaína (droga conhecida como "speedball") no dia 20 de abril de 2002, seu corpo já estava  entrando em estado de decomposição.
O dia da sua morte foi dado como 5 de abril pela perícia, coincidentemente o mesmo dia da morte de Kurt Cobain, outro ídolo da música grunge. Ao lado de seu corpo foram encontrados diversos tipos de drogas e até mesmo pertences pessoais.
Os dois morreram em Seattle, supostamente no mesmo dia. Vítimas de uma torturosa briga contra seus vícios e sua paranóias pessoais, deixaram um legado de músicas que mudaram uma geração.
Na caixa caída em meus pés, avisto logo de cara o "Facelift" em vinil. Alguém querendo sair de uma gosma. Placenta. Nojenta. Semiótica. Revolta. Silêncio.




Gustavo Ribeiro

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Gigante da montanha amarela

Nos pés inchados duas formigas caminhavam tranquilamente desviando dos dedos cheios de barro. O gigante descansava por ali mesmo, na encosta do mar. Molhava seus pés até a canela na praia de águas azuis.
Tudo tranqüilo para o gigante da montanha amarela. Tinha esse nome, devido a centenas de árvores de laranja e tangerina que circundavam o pé da montanha. Ele corria por todos os lados sem ser incomodado. Amassava algumas poucas vezes alguns bezerros distraídos ou ursos zombeteiros. Não era do tipo violento.
Pra comer se distraía com baleias azuis e pequenas plantações de repolho e às vezes de batata. Andava pelado de lá pra cá. Só não tinha pai nem mãe. Era um solitário. Brincava em sua ilha, porém, só. Não tinha contato com ninguém, não sabia falar. Suas unhas só saiam dos dedos quando por ventura as quebrava. Era uma sujeira de dar dó. Cabelo cumprido até a cintura. Seu cheiro podia se sentir em milhas de distância, mas ele estava muito mais longe do que isso. Estava no meio do mar.
Sem livros, sem música. Quando chovia assoprava e as nuvens saiam fugidas pra nunca mais voltar. Vida sem graça. Nenhuma luz, nenhuma situação mundana. Era só ele e seu mundo ilhado. Sem graça, sem nada, só sal.