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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um pouco de iluminações em uma caixa de madeira

Poderia começar escrevendo algo sobre pássaros ou políticos estranhos. Poderia facilitar a vida das pessoas e começar uma autobiografia intitulada: eu mesmo.  Serviria caviar aos porcos e lavagem aos elegantes reis e rainhas britânicos. Suspenderia o retorno ao trabalho em cinco dias, distribuir falsas notas de cem contos para os fascistas ou democratas.
Pequenas rotas de comodismo. Mesma história, mesma hora. Banho, leite gelado, fruta, alguma fumaça que sai das ventosas entranhas humanas. Estranho seria se ficasse lá quieto. Talvez minha avó estivesse aqui ainda para me repreender e dizer o quanto era importante uma pessoa trabalhar e ser digno de seu próprio suor. Saberes antigos, abençoada seja minha avó onde ela estiver.
E no mesmo instante penso que a vida pode ser boa agora. Respeito. Tenho que zelar os ensinamentos que herdei da minha grande mentora. Meus passos, às vezes saem dispersos pelas ruas íngremes e esburacadas da minha cidade. Penso em como eu poderia contar tudo que ando apreendendo. Desviante, continuo desviando os olhares de pessoas estranhas. Meu mundo distante da dita sociedade correta, pessoas fedem o suor delas de cada dia e se escondem em produtos para esconder suas fraquezas, desodorante, perfume, pasta de dente, xampu, creme pós barba. “Penteie esse cabelo menino” diziam os mais velhos, “erga essa calça, isso é um perigo, você pode ir até preso” ela exclamava e eu saia bravo enquanto me espiava pela fresta da cortina na janela.
Meus amigos devem estar em algum bar nesse mundo que pouco conheço, bêbados, discutindo civilizações perdidas do inicio dos tempos. Japoneses, Maias, europeus do leste, vodka, prostituição e guerra. Despentearei meus cabelos castanhos, em voltas de motocicleta por entre montanhas geladas de algum país distante.
“Passe mais uma fatia de pão”, algum governador fedorento disse após acabar de lamber os últimos vestígios do molho ao sugo do Chef italiano. Escargots andando para lá e para cá encima da mesa de jantar de um diplomata tupiniquim, que enquanto comia, caçoava do francês com bigode que tentava abrir um coco verde com uma banana nanica. Imperfeições.
Enquanto meu avião não chega, encosto meu corpo em uma pilastra de mármore grego. Enquanto meu avião não chegar vou ter que ler diversas versões de um mesmo golpe comunista. Licitações, indicações, moções, tudo isso em uma sessão ordinária. Cinco horas ordinárias. Distração, acabo de congelar meus professores que não me ensinam muita coisa que já não saiba. Meus pés, sem querer, acertaram o botão esquerdo da máquina. Em um futuro distante talvez eles sirvam para alguma coisa. Façam-me sorrir ao menos uma única vez. Seus escargots acabaram de escalar as paredes do palácio. Traga-me mais dois litros de absinto, quero ver a fada verde, só assim poderei descansar meus pensamentos bardos em uma poça de embriaguês profunda.


Gustavo Ribeiro

domingo, 16 de outubro de 2011

Antes e depois

Tudo passa devagar dentro de um ônibus. Muretas e placas luminosas. Não sinta medo. Saia correndo para uma dimensão estranha, finja, exploda nebulosas e se esconda detrás do muro. Num instante tudo que me foi ensinado ficou jogado em um grande saco de lixo plástico. Quando a muleta cai e fica só você e o chão. Perto, tão logo e tão já. Os horizontes começam a expandir-se. Meu instinto de caça tem que renascer dentro de meu fantástico ser terrestre. Minhas asas foram retiradas e moqueadas longe de minha visão. Tudo caminha lentamente agora.
As construções continuam a todo vapor em minha memória bagunçada. Seis menos dois dá quatro desde quando? Meus órgãos vitais se remexem dentro do meu corpo físico, quantas portas eu poderei abrir? Quantas outras perguntas terei que fazer aos céus? Meus olhos começam a arder. Toda a história que muda uma trajetória terrestre e meus desejos se tornam realidade. Tudo que meus olhos viram e tudo que meus ouvidos puderam ouvir não sei mais o que pode ser real. Mas acredito em algo.
Caminhe em sua escuridão, reflita e discuta com seus próprios medos. Cada planta verde tem um verde especifico. Inacreditável pensar assim. Saio despreparado sempre, sem escova de dentes ou cuecas suficientes, mas meu santo é forte, o que passa nas minhas veias senão um sangue puro? Sangue real. Minhas apostas podem aumentar em qualquer momento. Escrever em meus pensamentos é sempre mais fácil, as linhas se cruzam sem grande esforço. A mensagem chega antes que o mensageiro. Deito-me.
Uma bateria de gritos e sustenidos vozeirões balançam as palmeiras da antiga praça de qualquer lugar do Brasil. Pescoços apertados pelo peso da mochila que marcou com duas listras vermelhas minhas costas também. Relaxa, em qualquer momento você encontra o que veio procurar por aqui. As pedras foram espalhadas por vários cantos do planeta Terra. Meus livros estão todos empoeirados em algum canto da minha casa cheio de traças. Meu cérebro expande.



quarta-feira, 13 de julho de 2011

13 de julho

No dia do rock eu fico assim tão estranho. Vontade de sair do trabalho e voltar correndo pro quarto. Destilar meus pensamentos em uma garrafa gigante. Voar dentro de acordes multicoloridos e planar em belos e calmos jardins suspensos. Meu tênis preto manchado de amarelo e vermelho, suas sandálias soltas cobertas de grama. Estenda sua mão aos deuses da música agora e ouça Led Zeppelin. Feche os olhos e se sinta em uma plantação de morangos para sempre. Cheire a espírito juvenil e amplifique seus mais insanos pensamentos.

Gustavo Ribeiro

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Loucuras Santidásticas

Casas  e luzes se voltam a mim como uma fita de rádio normal sem comunicação. Crianças brincando em cirandas como se fossem carrosséis. Nos  pássaros posso ver seus olhos em posição novamente, chorando pela primavera que deu lugar ao longo inverno rodando e rodando em seus ventos a flor da pele.
Sorrisos e fantasias em  suas  lâmpadas com gênios voadores,  decisões sobre dados de pingos em preto. Falando sobre fogos em suas mãos de rodar pedras e corações, fazendo a Lua se perder de prazer na noite de estrelas cadentes. Sua solidão quase toca o céu com suas porcelanas voadoras, tapetes roxos, transatlânticos submersos em minha mente com rosas e trovões pedindo não dizer adeus, nesta última hora de loucura e situações e jogos que conseguem me explicar os mistérios dos ponteiros silenciosos.
Pessoas estranhas, vigias sombrios, sofrimentos caminhando em muralhas de espinhos, relógios em câmera lenta, gritos de prazer, linhas de metrô sentido ao zoológico, bandolins e corais contemplando esplendor em migalhas de fantasias. Loucuras santidásticas em séries de tevê, chips em informações de desastre, cores mudando em seu espírito, os dias mudam como as cores em seu teto. Peles de heróis em montanhas carameladas, filas de pão com amores programados em meses de olhares e encontros casuais.
Seu sufoco em sacolas plastificáveis, cheias de clichê e dúvidas, em qualquer lugar que você queira, até aonde os ventos te levarem com sossego, a fim de te acompanhar em cima deste disco voador com bebidas vermelhas e mundos loucos de luxúria. Cavalos com madames em vestidos azuis, com pérolas e dólares, em suas cabeças de fantoche, esta destruição  em notas tocadas com dedos de anjos e fantasmas em pianos encarnados por melodias medievais de sons e centavos. Mate-me com seu amor, em uma lista de tempos e sortudos, hoje será um dia glorioso em seu lago, qual o seu nome? Hoje será um dia glorioso em seu lago de sorte.


Alan Vianni


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Homeless

Com o frio o pobre senhor só tinha uma caixa de papelão para se cobrir. Suas costas molhadas com a urina que descia beirando o muro, de outro senhor que dormia mais para cima. Com suas unhas pretas de sujeira coçava a barba metade branca outra não. Seus olhos cansados olhavam a briga dos cachorros em plena madrugada. Eram apenas duas da manhã.
O estômago já mexido soltou tudo para fora em um único e barulhento vômito. Tinha tomado todas as garrafas de vinho que pôde. Os olhos lacrimejantes e vermelhos sabiam que a noite ainda ficaria cada vez mais gelada e barulhenta. Os trovões anunciavam uma chuva tempestuosa.
Na noite anterior uma briga por um pedaço de pão, fez com que seu braço sangrasse. Estava com a camiseta cheia de sangue escuro da outra noite. Estava morando ali por que sua esposa o traiu com seus dois melhores amigos, na mesma tarde, enquanto ele trabalhava em sua oficina para consertos de ventiladores. Quando chegou em casa e viu a cena, foi até o quarto dos fundos e pegou seu revolver calibre 38. Matou a esposa e os dois amigos. Mulher safada. Fugiu do interior e foi morar na capital em becos escuros. Vive na marginalidade do mundo cinza paulistano.
Seus pais o deixaram em um orfanato de freiras, sempre foi muito bom com todos. Caridoso e prestativo, toda semana fazia doações para a instituição onde foi criado. Ganhou o revolver de um antigo jardineiro do orfanato. Agora o chuva começou e eram apenas duas e dez da manhã. Sua noite não seria nada agradável.


Gustavo Ribeiro

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Pré estréia

A porta do bar tinha alguns adesivos colados. Adesivos de moto clubes, bandas dos anos setenta e algumas mulheres nuas. Senhores vestidos de couro e com seus grandes bigodes e barbas esperavam na fila de entrada. Deveria ser um bar gay. Nenhuma mulher. Talvez pudesse ser uma casa de prostituição também. Mas quem ficaria na fila para entrar em uma zona?
Meus olhos correram rápido para outra direção. Estava afim mesmo é de encontrar uma banca de jornais. Ler gibis de super-heróis ou não, só observar as capas coloridas e cheias de símbolos. Semiótica total. Ergui as calças e continuei andando. Maldito chiclete eu pensei. Durante uns quatro quarteirões continuei com o maldito grudado em meu tênis esquerdo.
Algumas putas faziam o seu ponto diário na esquina. Alguns carros estacionavam e logo partiam com as garotas. Pessoas sem papo. O cara precisa pagar uma garota para transar. Eu me enforcaria, logo. Um mundo bizarro como esse. Como posso pensar em ter lindos filhos e jogar eles aqui? Queria montar o meu próprio mundo. Cheio de cor e cheiro gostoso, nada de excrementos de cachorro de madame na frente dos meus passos largos. Estava atrasado. O filme da minha esposa ia começar em alguns instantes. Tive tempo de roubar duas flores em dois jardins. Quando ela me viu veio correndo me abraçar. Estava sorrindo e com um saco de pipocas na mão. Sentamos perto da sua família.  O filme iria começar.


Gustavo Ribeiro

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crianças

O frio e crianças sorrindo em um circo. Pipoca. Mágico. Malabaristas. Palhaço. Pequenas pessoas gargalhando apenas por estarem ali achei prazeroso. Sentia-me mais comovido a sorrir, quando ouvia alguém que quase caia no chão de tanto sorrir em alto e bom som. Lavei a alma.
Os sons do chicote, das batatas sendo mastigadas. Uma vida sem uma parada fixa. Vida de circense. Paixões. Loucuras.
- Saiam correndo daqui suas crianças desobedientes, gritou o velho ranzinza.
A garotada corria uma de cada lado, gritando, algumas jogando pedras nas janelas das casas com as luzes apagadas. As portas semi-abertas continuavam imóveis. Esperando algo passar por ali. Eu olhei tudo de longe sem acender nenhum cigarro. As crianças sumiram na escuridão. Eu entrei e fui tomar um banho.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Gigante da montanha amarela

Nos pés inchados duas formigas caminhavam tranquilamente desviando dos dedos cheios de barro. O gigante descansava por ali mesmo, na encosta do mar. Molhava seus pés até a canela na praia de águas azuis.
Tudo tranqüilo para o gigante da montanha amarela. Tinha esse nome, devido a centenas de árvores de laranja e tangerina que circundavam o pé da montanha. Ele corria por todos os lados sem ser incomodado. Amassava algumas poucas vezes alguns bezerros distraídos ou ursos zombeteiros. Não era do tipo violento.
Pra comer se distraía com baleias azuis e pequenas plantações de repolho e às vezes de batata. Andava pelado de lá pra cá. Só não tinha pai nem mãe. Era um solitário. Brincava em sua ilha, porém, só. Não tinha contato com ninguém, não sabia falar. Suas unhas só saiam dos dedos quando por ventura as quebrava. Era uma sujeira de dar dó. Cabelo cumprido até a cintura. Seu cheiro podia se sentir em milhas de distância, mas ele estava muito mais longe do que isso. Estava no meio do mar.
Sem livros, sem música. Quando chovia assoprava e as nuvens saiam fugidas pra nunca mais voltar. Vida sem graça. Nenhuma luz, nenhuma situação mundana. Era só ele e seu mundo ilhado. Sem graça, sem nada, só sal.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A noiva a corda e o banco

Não ao batuque, quero saber de distorção. Meus sentidos se misturam. Dor de cabeça, vinagre, cebola e sal. Todos os mamelucos na porta da igreja. E a noiva pendurada com uma corda no pescoço. Pobre garota. Descobriu ter sido violentada por seu próprio pai enquanto dormia bêbada após sua despedida de solteira.
Na escola, ridicularizava as crianças mais pobres, as bolsistas. Saia gritando e espalhando o terror no meio das adolescentes cheias de maquiagem. Na praça, chutava o monte de folhas das senhoras que por ali limpavam todo santo dia.
Do pai se orgulhava. Ganhou um carro ao completar dezessete anos. Cantava pneu em frente aos bares cheios de pedreiros e garis da pequena cidade. Revirava os baús da sem-vergonhice. Roubavam da mãe algumas jóias que seriam trocadas por doses de heroína. Saia correndo com sua amiga e vizinha.
Foi na Europa onde conheceu seu futuro marido. Negro, alto, inglês. Foi na contramão da via. Seu pai não gostava muito disso. Sabia que tinha que castigá-la. Foi muita audácia de sua parte, ele gritava enquanto  corria com seu veículo importado de 320 cavalos.
Sua filha merecia uma lição. Bebeu muito aquele dia. Enxugou duas garrafas de uísque com seu melhor amigo em qualquer bar da região sul de São Paulo. Ao sair da garagem raspou a porta. Cuspiu e gritou com o cobrador.
Chegou em sua casa bêbado, encontrou alguém nu deitado no sofá da sala. Ao desabotoar a camisa ouviu um gemido. Sua filha acabou de vomitar dois pedaços de kiwi. Tirou o paletó e subiu sobre a filha embriagada e a estuprou. Foi dormir mas não vestiu os sapatos.
A empregada contou para a noiva tudo que viu na noite anterior, querendo tirar algum trocado da moça que nem sabia de nada. a sensação de ancia de vômito encheu sua boca. Vomitou. Uma corda e um banco foram suficientes. Ela iria se matar.


Gustavo Ribeiro

terça-feira, 24 de maio de 2011

Suspenso

Em um barco, desço a corredeira em direção à grande cachoeira. Pernas cansadas, punhos cortados. Meu cabelo parece despenteado. Minhas unhas cheias de tinta preta. As luzes da margem do rio acenderam. Todos os outros pássaros se encostam a seus galhos. A correnteza começa a ficar mais forte.
Com as mãos amarradas com uma corda, nada posso fazer enquanto o barco começa a pegar velocidade. Qualquer pedra no curso do rio, fez com que o barco desse um grande salto. Meu espírito de loucura se ajoelha diante dos seus delírios anarquistas. Um pequeno furo começa a encher o barco. Situações.
A Lua cheia me observa de longe. Cometas, nebulosas, buracos negros, meteoritos, distinto. Na beira da cachoeira o barco pára. Eu respiro e olho em volta. Não tinha mais corda.


Gustavo Ribeiro

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Delta Blues

No começo da madrugada me sinto perseguido por um lobo faminto. Coloco o capuz e ajeito as calças. O frio das noites é uma benção para meu espírito criador. Penso mais no frio. Penso em arte. Sigo cuspindo as ideais vagas, pego meu caderninho e ponho na mochila. Uma caneta preta, não falta.
No cheiro da tinta me criei, ficava observando meu pai pintar um mesmo quadro inúmeras vezes. Pintava e jogava tinta em cima. Meus ouvidos acostumados com Rolling Stones deixavam meus olhos só prestarem atenção nos detalhes da pintura. Tinta e música em volume agradável. Comecei ai a escutar também  Jazz e Blues. Robert Johnson debruçava na mesa branca  de desenho do meu pai.  Johnson vendeu sua alma ao diabo na encruzilhada das rodovias 61 e 49 em Clarksdale, Mississippi. Estava  com seu violão e uma garrafa de whisky, quando ouviu um bend escandaloso de uma gaita cromada, era o diabo.
Eu ficava ouvindo suas treze canções várias vezes ao dia. No espaço reservado para a pintura, me sentava na frente de uma tela em branco e por ali ficava espiando ou vislumbrando como ela poderia ficar cheia de tinta. Tinta látex. Eu e meu banco de madeira. Cheio de tinta no tênis.


Gustavo Ribeiro

quarta-feira, 18 de maio de 2011

ANDARILHO

Em dias que não se tem nada para escrever, dias  inexistentes, falta de inspiração, baboseira. Mas o que eu escreverei agora? O que me pega pelo laço no momento em que tenho uma vontade de acender um cigarro?
Barulhos entram em meus ouvidos sem serem anunciados. Ruídos que não quero ouvir. Uma invasão do meu sentido auditivo. Um estupro! Andando pelas ruas os carros passam com seus alto-falantes estourados, me criando momentos de insatisfação. Buzinas em sinais, pneus que derrapam, caminhões e motos tão barulhentos. Civilização maldita.
No meio do quarteirão, um garoto passou correndo com o joelho sangrando. Não gritava nem reclamava de nada. Nas minhas pegadas que iam sendo deixadas, fazia o contratempo de mais algumas outras canções da minha cabeça.  Desafinadas.
O tempo demora em passar e não saberia  escrever mais nada depois disto. No prefácio de “Don Quijote de la Mancha”,  Miguel de Cervantes (1547-1616), escreveu que amassava dezenas de folhas antes de conseguir alguma coisa que prestasse. Não sou nenhum Cervantes! Hoje deleto centenas de vezes textos que não me servirão em nada. Malditos escritores.
Olho em volta e nada vejo de interessante. No primeiro ano de faculdade a professora nos pediu para sair e fazer uma matéria com alguma situação ou com alguém. Lembro que sai e não fiz nada. Fiquei em um buteco tomando uma cerveja ao invés de sair e procurar uma matéria. Na minha cabeça ninguém era importante o suficiente para eu fazer uma entrevista.
Naquele mesmo dia, depois da aula encontrei um morador de rua na praça, tive uma conversa de uns trinta minutos com ele. Falava com o português correto. Tinha sido preso. Me renderia no mínimo duas páginas. Com o tempo fui descobrindo que todos rendem centenas de histórias boas. Cada um. Do mendigo ao arcebispo. Prefiro os mendigos. São mais honestos.
Continuo andando por aí, observando quase tudo. Mentalizando crônicas e sustentando as notas distorcidas das lambretas que passam acelerando ao meu lado. Do resto, vou dar uma descida na gruta, respirar o cheiro do mato, ouvir os pássaros da tarde e observar a poluição no rio Tietê. Junto com Dom Quixote o cavaleiro andante e seu cavalo Rocinante.
Gustavo Ribeiro

ZZZZZZZZZZZZZ !

Como fugir da conformidade polida e cínica das pessoas que nos cercam diariamente? Entre um trago ou outro fico apenas observando o andar triste das madres que procuram um bom lugar na sombra para descansar. Meus ouvidos começam a sentir um chiado. Meus discos não emitem tanto. Barulhos de manhã.
O meu despertador está com uma música de uma banda que eu curto, Sublime. Hoje estava no meio de um sonho gostoso quando começou a tocar aquela canção. Tinha que me levantar, meu dia ia se tornar comum de novo.
Olhei para minhas coisas, duas fotos um quadro e alguns discos, queria tanto estar ali só. Me sentar para ouvir música, um prazer magnífico. Sentado ou em pé. O prazer de você pegar o disco, olhar em cada espaço da capa e contracapa. Sentir o cheiro do papelão, do plástico, do vinil, do velho. Sentido. O prazer de dar sentido as pequenas coisas.
No mundo atual, não se tem o prazer físico de ouvir música, se é que isso exista. Em um pen-drive, conseguimos guardar enormes coleções, discografias completas das bandas prediletas, mas o prazer da busca se perde. Nada como achar em um sebo um disco que você ouvia quando estava engatinhando na sala atrás de diversão. Led Zeppelin, bruxos disfarçados de músicos.  
O sentido da admiração, a fuga onírica da realidade. Só se encontra liberdade na arte, na criação, em sentar para ouvir música, ou não existe liberdade. Presos em uma rede de situações chatas estamos todos. Fico sem pensar por dois minutos e tudo que eu via parece explodir. Abra os olhos. Sinta a natureza. Olhem o pôr do sol antes que ele vá embora.


Gustavo Ribeiro

terça-feira, 17 de maio de 2011

DESASTRE DE ESTRELAS


Nesta mesma rua escura, com centenas de postes desabitados de luz e aqueles pequenos jacarés não paravam de me rodear. Naquele trágico dia em que tudo se voltou para minha mente, não consegui ver seus olhos de serpentina brilhante.

Sinto-me um velho milionário, em visita ao inferno dos desejos. Sinto-me um velho milionário perdido nas maravilhas de Alice. Vamos caminhando para o abismo encantado de alucinações e ver as belezas selvagens que lá se encontram.

Com meus dólares e centavos, pago aquela pessoa blasé do empoeirado e monótono bar esquizofrênico da esquina sete. Vamos lá, vamos lá, ver se aquele vaso está com as nossas cinzas do século. Sequestrarei a lua e pintarei estrelas em forma de cadencia para seu lindo céu de furacões e baunilha.


Alan Vianni

sábado, 14 de maio de 2011

Ruas e salas

A noite chega como a batucada que se aproxima para mais um fim carnavalesco, não gosto muito do carnaval, confesso, prefiro os dias nublados com um blues entoando nas caixas estéreos que meus avôs compraram na feira passada. Transbordo aquele liquido vermelho pelo copo empoeirado, deixado há dias em minha escrivaninha um pouco organizada.

Aquela família não grita mais a noite, será que a viajem irá demorar, ou apenas só alguns dias de sossego em minha velha poltrona vendo tudo se carnavalizar em uma caixa preta? Pego minha jaqueta, à noite esta fria e chuvosa. Vou rumo à porta, pego minha felicidade “enlatada”,  saio rumo às ruas, tomadas por gotas de chuva e cheiro de asfalto molhado.

            A passos largos me locomovo, com algum tipo de ruído estranho, as árvores balançam como em um filme de outono, flores se aglomeram nas encostas das calçadas, formando um lindo carrossel, minhas mãos logo se encaminham para os bolsos quentes e confortáveis daquela jaqueta com ar inglesa. Subo, desço, viro minhas pernas não param mais, são ruas e ruas de solidão, gargalhadas e amores em série. Nada existe além do brilho e quietude da noite.

No silêncio, acendo aquele cigarro para me fazer companhia junto com aquela madrugada. A rua parece ter sido tomada pela neblina que encobre os sonhos e pesadelos. O vento abre as janelas, mas nenhum ser se pôs a entrar nas casas velhas e abandonadas, meus pés já sabem o momento certo de parar. Entro em uma espécie de bar com uma grande placa luminosa dizendo “No silencio da sala”.




Alan Vianni

sexta-feira, 13 de maio de 2011

JOELHO ESFOLADO

O silêncio chega perto da porta. Os pássaros começam a voar sem pretensão. Fogem de alguma coisa. O vento encosta suavemente a janela de madeira do antigo casarão. A escuridão começa a tomar conta do quarto que outrora servia de aposento para um bondoso rei. Seu nome era Limbs.
Nas manhãs de sábado, costumava descer de seu aposento real para ir até o jardim de verão do castelo. Ali ele pintava e escrevia sempre com um copo de absinto na mão. Seu mundo colorido tomava conta das manifestações artísticas. Cavalos alados. Dragões com seis cabeças. Rituais profanos de culto à natureza. Limbs era um mago.
Sua flor de lótus brotava aos domingos e seu codex permanecia intocado. O senhor Magpie, trazia no mesmo horário suas bolachas de leite e uma xícara de chá. Confinados em uma caixa de madeira, seu pequeno mundo o deixava tranqüilo.
Disco voador. Amarelo. Isopor. Caixa de tintas. Esquinas. Desorganizador. Lucidez.  Alquimia. Robotiza dor.  Na parede pintada de azul, desenhos em branco. Na parede pintada de branco, desenhos em vermelho. Seu mundo torto começa a sacudir.
O garoto corria desesperadamente com sua caixa dentro da mochila. Só parava quando os carros freavam para não o acertar. Sua escola ficava mais quatro quarteirões para esquerda. Ele iria se atrasar. Suas pernas estavam cansadas. Respiração ofegante. O cadarço desamarra. Olhando para o céu respira fundo e levanta. Um fio de sangue começa a descer pelo joelho esquerdo  esfolado.
Ao chegar à frente da escola, subiu com pressa os últimos degraus. O corredor cheiroso e brilhante fazia seus sapatos deslizarem com suavidade . Ao encontrar a sala número cinco, entra sem ser anunciado e senta em uma cadeira vazia no começa da fila. O sinal toca. Ele abre o caderno e assiste a professora de costas escrever no quadro negro. Ele deseja ser médico.
Gustavo Ribeiro

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Elevador de Suco

“A fumaça sobe ao teto, mãos elevam copos enfeitados à mãos pintadas de vermelho. Arranha céus elaboram arquiteturas góticas, sofás sentam os corpos suados e embriagados. Sirenes expulsam desejos e misteriosas vozes formam melodias sonoras aos ouvidos inocentes.
Parados com All-Star em sacadas contemporâneas, a neblina cobre o xadrez da Rua Augusta, pássaros cantam às 3 da manhã. O líquido vermelho pendurado em copos plásticos fabricados por mãos agonizantes.
As ruas se estreitam em calçadas e esquinas sombrias, faróis vermelhos passam ao pulsar de um coração gelado. Raios iluminam a noite fechada por nuvens e pecados, a caixa estéreo então, a dança de almas e beijos desejados . “

Alan Vianni

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Filtros

A mesa cheira a cigarros. As flores tossem o ar puro na noite de lua cheia, gatos viram as latas de lixo fazendo gritos transformaram-se em melodia.
Os raios começam a iluminar a madrugada nos becos sombrios.
“Senhores escritores sentem-se em suas cadeiras falantes e tirem suas dores em papéis machê” disse o mendigo jogado na calçada.
As ruas descansam suas costas com a chuva que começa a derrubar suas gotas como o som de palmas, acordando os desejos em pesadelos sangrentos.
A terra começa a ficar fofa nos quintais fabricados e enfeitados por flores em cativeiros ,isso se repete por todo quarteirão .Galhos e folhas iniciam uma dança,conforme as gotas que caem,formando sincronias surreais.
Os prédios escondem a visão das nuvens carregadas e impede a dança do vento, as mãos oram  a perfeição das formas em lagos vazios cercado por libélulas.
Sem claridade.




Alan Vianni

Peixes Navegantes

Pequenas gotas caem adormecidas na manhã cinzenta do lado sul, rosas presas em arames fechando a sorte e a luxuria. Anjos com seus olhos de sementes esverdeadas dançam em uma roda de sonhos. Uma bala atinge a conferência novamente no horário nobre, mais uma execução em doces lares.
                As ruas geladas esfumaceiam  vapores lançados pelos bueiros livres de cores, as luzes amareladas enfeitam os pássaros noturnos e sombrios. Em seu lado obscuro uma melodia do fim dos quarteirões em seu vulcão de erupções.
                As árvores parecem necessitar dos ares celestiais e nuvens carregadas de flores, por milhas e milhas procurando a pétala da meia noite. A meia luz de um antigo bar, guitarras pedem a atenção do barman para um gole que a anos estava prezo dentro daquela garrafa de uísque doze anos.
                Na sacada rústica do bar milenar,  acendo um filtro de prazer  e carbono para fugir a mente ao outro lado da noite. Cabelos estranhos parados em portas de carros, esperando novamente as lágrimas de uma noite fechada com traços de uma vela na escuridão.
Peixes estranhos navegam por calçadas imaginárias falando sobre fantasias encurraladas em garrafas voadoras. Profetas com copos escravos em seus punhos, elevando as estrelas seus pecados minúciosos dentro de uma bola de sorvete. Quebra-cabeças  se encaixam em esquinas, com toques de piano e apenas o vento como uma drástica companhia, você é tudo que necessito em quadrinhos mentirosos, seus olhos sexy voaram direto para o “Inferno de  Dante” .
O bar parece ter sumido daquela esquininha da rua 8, o copo de vidro foi deixado por descuido em minhas mãos, então sai caminhando rumo a porta que tinha sinais de uma luta da noite passada. Os passos batem no chão com um ritmo de tango, calmo, mas com intensidade.
Câmeras de segurança filmam a privacidade contemplada pelo céu negro e fechado,os muros parecem de colocar em um corredor da morte programado por ruas pintadas e pontos de ônibus, as flores ficam aprisionadas dentro de quintais montados com pisos e azulejos.
Andando em um “labirinto” de pecados, as harpas entoam os toques do fim dos tempos, os anjos se sentam em cima dos postes do “Coliseu de fantoches” cantando o som dos pássaros mortos pela pólvora da insanidade.




Alan Vianni  03-01-2011

Um pouco de surrealismo


E quando a vontade absurda de olhar pela janela e encontrar a linda garota bate, porém não se verá mais que paralelepípedos, pedras que ornamentam a pavimentação da minha rua. Alguns flocos de milho para o café da manhã reforçado. Torradas, patês, frutas e bolo de mandioca. Minha geração não sabe o que é viver bem. Quem sabe? Uma onda de nostalgia me bateu nesses tempos, música que me faz lembrar a infância. Cresci ouvindo os melhores LPs da história do rock. Orgulho-me por isso. Stones, Led, Bowie, minhas influências musicais foram da melhor qualidade. Continuo minhas poesias matinais. Vou buscar um copo de água, quando percebo uma movimentação estranha no quintal. Uma sinfonia louca de alguns pássaros e passarinhos endoidecidos pela primavera que acaba de ir embora. Pobres pequenas criaturas.
Uma gaita ecoa suas notas por toda a estação de trem. Pessoas de terno e lendo jornais se enfileiram nos bancos com suas malas do lado. O engraxate ilumina seus sapatos importados do norte de Londres. Enquanto a locomotiva não chega, mais dois cafés e cinco cigarros. Ira visitar sua querida esposa em Amsterdam. Ela faz quadros com seu próprio sangue e vende a preços populares em um bairro boêmio da capital holandesa. Sempre com seu IPOD de oito gigabytes, tanto faz, eles não irão ficar muito tempo juntos. Ele leva a noticia que deseja o divórcio, encontrou uma garota em Berlim, com a metade da idade da esposa e que pintava com tinta acrílica. Não resistiu aos encantos da jovem garota de Berlim. Devaneio europeu.